terça-feira, 27 de outubro de 2009

Soneto LI

Tu risa pertenece a un árbol entreabierto
por un rayo, por un relámpago plateado
que desde el cielo cae quebrándose en la copa,
partiendo en dos el árbol con una sola espada.

Sólo en las tierras altas del follaje con nieve
nace una risa como la tuya, bienamante,
es la risa del aire desatado en la altura,
costumbres de araucaria, bienamada.

Cordillerana mía, chillaneja evidente,
corta con los cuchillos de tu risa la sombra,
la noche, la mañana, la miel del mediodía,

y que salten al cielo las aves del follaje
cuando como una luz derrochadora
rompe tu risa el árbol de la vida.

Pablo Neruda.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Seio de virgem

O que eu sonho noite e dia,
O que me dá poesia
E me torna a vida bela,
O que num brando roçar
Faz meu peito se agitar,
E' o teu seio, donzela!

Oh! quem pintara, o cetim
Desses limões de marfim,
Os leves cerúleos veios,
Na brancura deslumbrante
E o tremido de teus seios!

Quando os vejo, de paixão
Sinto pruridos na mão
De os apalpar e conter...
Sorriste do meu desejo?
Loucura! bastava um beijo
Para neles se morrer!

Minhas ternuras, donzela,
Votei-as à forma bela
Daqueles frutos de neve...
Aí duas cândidas flores
Que o pressentir dos amores
Faz palpitarem de leve.

Mimosos seios, mimosos,
Que dizem voluptuosos:
"Amai-nos, poetas, amai!
"Que misteriosas venturas
"Dormem nessas rosas puras
E se acordarão num ai!"

Que lírio, que nívea rosa,
Ou camélia cetinosa
Tem uma brancura assim?
Que flor da terra ou do céu,
Que valha do seio teu
Esse morango ou rubim?

Álvares de Azevedo

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Mais que uma poesia

Uma poesia é um rosto moreno,
molhado pela chuva fina.
É um olhar distraído, numa piscada
serena da garota distante.

Uma poesia é um beijo colorido
no papel, com cor de framboesa.
É uma blusa molhada, colada,
mostrando um corpo excitante.

Uma poesia é o charme que se cria
quando disfarçando ela diz não.
É um gole de vinho tinto, seco,
de quem sonha na noite fria (vazia).

Uma poesia são pingos d’orvalho
iluminando uma rosa aveludada.
É um sorriso criança, maroto,
da moça com ar de desdém.

Uma poesia são raios de sol
passeando pelas nuvens à tarde.
É uma rima quase indefinida, por
um amor escondido, para ninguém.

Pedro Cesquim.

sábado, 17 de outubro de 2009

Amor

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu'alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d'esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!
Vem, anjo, minha donzela,
Minha'alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

Álvares de Azevedo

Pálida à luz

Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando
Negros olhos as pálpebras abrindo
Formas nuas no leito resvalando

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!

Álvares de Azevedo

Adeus, meus sonhos!

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh'alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus?
Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!

Álvares de Azevedo

domingo, 11 de outubro de 2009

A Flauta Vértebra

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.


Maiakóvski

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Anoitece

Quando a musa aparece,
feliz, radiante, na tarde fria,
para sonhar nos convida,
para viver uma poesia.

É como um pegar na mão,
seguir a dança,
sentir nos olhos,
do próprio coração,
um pulsar, com calma
na lágrima que desce.

É um doce suspiro,
ao sentir o dia completar,
e nele se aquecer,
como se o ar fosse faltar.

E na escuridão que chega,
soltos, contentes,
pirilampos, brincando
de pega-pega,
unindo nossas almas
quando docemente anoitece.


Pedro Cesquim

Em silêncio

Em silêncio te falo na voz do coração,
e nesse instante se afina a sintonia,
pondo nossos corpos em harmonia,
criando uma atmosfera de comoção.

Em silêncio te falo com muito carinho,
e sua presença se torna presente,
que mesmo sabendo voce ausente,
sinto seu respirar, de mim juntinho.

Em silêncio te falo com paz e calma,
e te imagino ouvindo e respondendo,
na sutil sabedoria do amor divino.

Em silêncio te ouço com minh'alma, e
calado, em extase, vou percebendo,
em unissono sua voz como um hino.

Pedro Cesquim

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A Noite

A noite quando chega
Traz o teu cheiro de Lua
E a brisa mesmo que tardia
Meu sonho leva

A noite quando chega
Leva-me para teus sonhos
Embriaga meu pranto
Até que o sol apareça

Há noite que nunca chega...


Alexandre Alves Neto