domingo, 21 de novembro de 2010

Silêncio Interior

Silêncio que envolve o coração do abutre,
pequena esperança se abre no horizonte,
de apaziguar a dor que de nossa alma nutre,
de selar com amor a água de nossa interna fonte!

Silêncio que a morte um dia há de velar,
pequena lembrança se estende pela eternidade,
de infinitos sonhos que vem a palpitar
a memória daqueles que buscam a verdade!

Silêncio que habita a alma do mago,
pequena bonança que ressurge no limiar
da tempestade que invade o oculto lago
da pequena pétala que insiste em desabrochar!

Silêncio que permeia a luz que toca a noite,
pequena criança que vive a observar
o sofrimento daquele que descobre no açoite
a única forma que aprendeu de amar!

Marco Pardini

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vida e Morte

De um profundo sussurrar do amor,
uma fagulha de luz infinita se acende,
como o grito profundo de um trovador,
pelo nome de batismo uma alma atende!

Sua caminhada pela infância adormece,
no passar do tempo sua razão personifica,
o que é feio se afasta, o que é belo enaltece,
aprisionando sua alma a um corpo que modifica!

Distante da morte é chegada à fase adulta,
Em companhia perpétua, se unem fracasso e sucesso.
Da escuridão tem medo mas da luz, de alegria exulta,
do sonho perturbado, acorda com o suor impresso!

O tempo agora escoa pelas mãos do intrépido ancião,
corpo franzino que se tornou frágil como o vento,
se arrastando lentamente pelos grilhões do coração,
antes do exalar do último e derradeiro alento!

Marco Pardini

Renascer de um Anjo

Lindos olhos que emanam Harmonia,
pequenos gestos de um Ser Eterno,
seu nome ecoa aos ventos alegria,
luz que nos aquece em pleno inverno!

Pureza que ressurge em forma de criança,
vida que retorna à Terra neste momento,
para banhar nossas vidas de esperança,
e brindar nosso amor com doce sentimento!

Na busca da Felicidade ressurge a certeza,
que na infinidade do Amor existe um espaço,
e por detrás da plebéia renasce uma princesa,
com sua fada iluminando-nos a cada passo!

Quando embebo no cálice sagrado da infinita melodia,
sorrisos emergem de meu Eu Interior,
unindo-se ao brilho dos anjos que em sua sinfonia,
cantam o hino eterno de meu mais novo amor!

Marco Pardini

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A noite

A nebulosidade ameaçadora
Tolda o éter, mancha a gleba, agride os rios
E urde amplas teias de carvões sombrios
No ar que álacre e radiante, há instantes, fora.

A água transubstancia-se. A onda estoura
Na negridão do oceano e entre os navios
Troa bárbara zoada de ais bravios,
Extraordinariamente atordoadora.

A custódia do anímico registro
A planetária escuridão se anexa...
Somente, iguais a espiões que acordam cedo,

Ficam brilhando com fulgor sinistro
Dentro da treva omnímoda e complexa
Os olhos fundos dos que estão com medo!

Augusto dos Anjos

A esperança

A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.

Muita gente infeliz assim não pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a crença de fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro - avança!

E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da morte a me bradar: descansa!

Augusto dos Anjos

Versos de amor

Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a . . ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.

Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!

Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.

Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal como eu o estou amando,
E Espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima, e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!

Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Marsias — o inventor da flauta —
Vou inventar também outro instrumento!

Mas de tal arte e espécie tal faze-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!

Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d'alma!

Augusto dos Anjos

O coveiro

Uma tarde de abril suave e pura
Visitava eu somente ao derradeiro
Lar; tinha ido ver a sepultura
De um ente caro, amigo verdadeiro.

Lá encontrei um pálido coveiro
Com a cabeça para o chão pendida;
Eu senti a minh’alma entristecida
E interroguei-o: "Eterno companheiro

Da morte, que matou-te o coração?"
Ele apontou para uma cruz no chão,
Ali jazia o seu amor primeiro!

Depois, tomando a enxada gravemente,
Balbuciou, sorrindo tristemente: -
"Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!"

Augusto dos Anjos

O fim das coisas

Pode o homem bruto, adstricto à ciência grave,
Arrancar, num triunfo surpreendente,
Das profundezas do Subconsciente
O milagre estupendo da aeronave!

Rasgue os broncos basaltos negros, cave,
Sôfrego, o solo sáxeo; e, na ânsia ardente
De perscrutar o íntimo do orbe, invente
A limpada aflogística de Davy!

Em vão! Contra o poder criador do Sonho
O Fim das Coisas mostra-se medonho
Como o desaguadouro atro de um rio ...

E quando, ao cabo do último milênio,
A humanidade vai pesar seu gênio
Encontra o mundo, que ela encheu, vazio!

Augusto dos Anjos