A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.
Muita gente infeliz assim não pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?
Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a crença de fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro - avança!
E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da morte a me bradar: descansa!
Augusto dos Anjos
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Versos de amor
Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a . . ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.
Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!
Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.
Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.
Porque o amor, tal como eu o estou amando,
E Espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!
É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima, e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!
Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Marsias — o inventor da flauta —
Vou inventar também outro instrumento!
Mas de tal arte e espécie tal faze-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!
Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d'alma!
Augusto dos Anjos
Descasco-a, provo-a, chupo-a . . ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.
Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!
Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.
Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.
Porque o amor, tal como eu o estou amando,
E Espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!
É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima, e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!
Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Marsias — o inventor da flauta —
Vou inventar também outro instrumento!
Mas de tal arte e espécie tal faze-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!
Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d'alma!
Augusto dos Anjos
O coveiro
Uma tarde de abril suave e pura
Visitava eu somente ao derradeiro
Lar; tinha ido ver a sepultura
De um ente caro, amigo verdadeiro.
Lá encontrei um pálido coveiro
Com a cabeça para o chão pendida;
Eu senti a minh’alma entristecida
E interroguei-o: "Eterno companheiro
Da morte, que matou-te o coração?"
Ele apontou para uma cruz no chão,
Ali jazia o seu amor primeiro!
Depois, tomando a enxada gravemente,
Balbuciou, sorrindo tristemente: -
"Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!"
Augusto dos Anjos
Visitava eu somente ao derradeiro
Lar; tinha ido ver a sepultura
De um ente caro, amigo verdadeiro.
Lá encontrei um pálido coveiro
Com a cabeça para o chão pendida;
Eu senti a minh’alma entristecida
E interroguei-o: "Eterno companheiro
Da morte, que matou-te o coração?"
Ele apontou para uma cruz no chão,
Ali jazia o seu amor primeiro!
Depois, tomando a enxada gravemente,
Balbuciou, sorrindo tristemente: -
"Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!"
Augusto dos Anjos
O fim das coisas
Pode o homem bruto, adstricto à ciência grave,
Arrancar, num triunfo surpreendente,
Das profundezas do Subconsciente
O milagre estupendo da aeronave!
Rasgue os broncos basaltos negros, cave,
Sôfrego, o solo sáxeo; e, na ânsia ardente
De perscrutar o íntimo do orbe, invente
A limpada aflogística de Davy!
Em vão! Contra o poder criador do Sonho
O Fim das Coisas mostra-se medonho
Como o desaguadouro atro de um rio ...
E quando, ao cabo do último milênio,
A humanidade vai pesar seu gênio
Encontra o mundo, que ela encheu, vazio!
Augusto dos Anjos
Arrancar, num triunfo surpreendente,
Das profundezas do Subconsciente
O milagre estupendo da aeronave!
Rasgue os broncos basaltos negros, cave,
Sôfrego, o solo sáxeo; e, na ânsia ardente
De perscrutar o íntimo do orbe, invente
A limpada aflogística de Davy!
Em vão! Contra o poder criador do Sonho
O Fim das Coisas mostra-se medonho
Como o desaguadouro atro de um rio ...
E quando, ao cabo do último milênio,
A humanidade vai pesar seu gênio
Encontra o mundo, que ela encheu, vazio!
Augusto dos Anjos
sábado, 30 de outubro de 2010
Impermanência
Olhar no espelho da vida e ver uma face refletida
talvez seja apenas o reflexo estampado da sorte,
um pequeno e insípido pedaço de vida revestida
ou apenas um suave e constante aviso da morte!
Olhar no espelho da vida pode muito simbolizar,
a arte de procurar no recôndito de si um abrigo,
o desejo de esconder do outro o que é amar,
ou encontrar na imagem refletida apenas um amigo!
Olhar no espelho da vida é como tocar o universo,
um interno mundo paralelo é possível descobrir,
no mergulhar profundo da vida tiro um verso,
onde o antigo e o novo devem para sempre coexistir!
Enxergar no espelho da vida a face do imperecível
é compreender que a matéria é apenas algo passageiro,
enquanto a mente humana se apega com o não imprescindível
a alma divina anuncia a impermanência das coisas ao forasteiro!
Marco Pardini
talvez seja apenas o reflexo estampado da sorte,
um pequeno e insípido pedaço de vida revestida
ou apenas um suave e constante aviso da morte!
Olhar no espelho da vida pode muito simbolizar,
a arte de procurar no recôndito de si um abrigo,
o desejo de esconder do outro o que é amar,
ou encontrar na imagem refletida apenas um amigo!
Olhar no espelho da vida é como tocar o universo,
um interno mundo paralelo é possível descobrir,
no mergulhar profundo da vida tiro um verso,
onde o antigo e o novo devem para sempre coexistir!
Enxergar no espelho da vida a face do imperecível
é compreender que a matéria é apenas algo passageiro,
enquanto a mente humana se apega com o não imprescindível
a alma divina anuncia a impermanência das coisas ao forasteiro!
Marco Pardini
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
A solidão tem cheiro de chuva
A solidão tem cheiro de chuva
E muitas vezes escorre pelos nossos sonhos
Como se fosse feita de nada
A solidão é isso mesmo: uma falta de tudo
Uma paz profunda
Alexandre Alves.
E muitas vezes escorre pelos nossos sonhos
Como se fosse feita de nada
A solidão é isso mesmo: uma falta de tudo
Uma paz profunda
Alexandre Alves.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Busca Interior
No olhar do espelho vê-se o próprio reflexo,
Nasce do desejo interior uma estranha vontade,
De criar vidas diversas e mundos sem nexo,
De buscar na aparência da falência, a verdade!
Pequenas pedras são dispostas ao longo do caminho,
Lápides se espalham nessa eterna busca,
De seus espinhos, nascem rosas tocadas pelo carinho,
Cujas mãos do homem sua beleza apenas ofusca!
Árdua e cansativa é a subida à montanha,
O obstáculo, no entanto, envaidece o trovador,
Maior ainda é o caminho que se dirige à entranha,
Pois é nela que se conhece o verdadeiro Amor!
Pontos distantes de luz brilham no enigmático céu,
Silenciosas paragens estelares brindam a cidade,
Indicando que para viver é preciso rasgar o véu
Que oculta nossos olhos da doce Eternidade!
Marco Pardini
Nasce do desejo interior uma estranha vontade,
De criar vidas diversas e mundos sem nexo,
De buscar na aparência da falência, a verdade!
Pequenas pedras são dispostas ao longo do caminho,
Lápides se espalham nessa eterna busca,
De seus espinhos, nascem rosas tocadas pelo carinho,
Cujas mãos do homem sua beleza apenas ofusca!
Árdua e cansativa é a subida à montanha,
O obstáculo, no entanto, envaidece o trovador,
Maior ainda é o caminho que se dirige à entranha,
Pois é nela que se conhece o verdadeiro Amor!
Pontos distantes de luz brilham no enigmático céu,
Silenciosas paragens estelares brindam a cidade,
Indicando que para viver é preciso rasgar o véu
Que oculta nossos olhos da doce Eternidade!
Marco Pardini
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Soneto de um Amor infinito
Meu amor por ti sempre existiu, Além do tempo e das eras passadas, Teus olhos despertaram minhas estradas, E ao te tocar, meu mundo se ...
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